quarta-feira, 2 de abril de 2014

Novela antropológica

Me julgue se eu penso o mal alheio, penso mesmo... Fico fazendo novela na cabeça. Engraçado... Acho que desde criança temos um adestramento de bem e mal, sem meio termo ou comportamento humano de maneira mais “antropo”, a gente se apega só na “lógica” inventada e simples.

Igual livro infantil, em contos de fada não existe... Sei lá uma menina de origem pobre que sofreu o pão que o diabo amassou ficou órfã ou não ganhou a Barbie que queria e resolveu se vingar do mundo. Sabe-se lá qual a triste história de vida dela, porque cada um tem uma... O fato é que ela ficou má e virou a bruxa que deu um jeito de casar com o rei e tornar-se a rainha.

A história vai direto na coisa malévola. E ai sempre tem uma sonsa que é a princesa, que é do bem. Uma tapada, que paga de boazinha e quer por que quer o príncipe encantado e ninguém conta os podres dela... Ela deve acordar com hálito de cereja a cretina. A história fica restrita a como ela tem um cabelão comprido e faz um charme danado pra todo mundo e ninguém diz o quanto ela é preguiçosa, num lava nem a calcinha e sempre teve tudo na mão, mas ela é linda, então é do bem.

Ou novela, aquela ambiciosa que quer dominar tudo e todos e a outra que só quer o que? O que? O que? Amar!!! Aí as duas inventam de querer o mesmo cara, ou nem querem, mas tem que rolar disputa, porque num tem uma só novela que num tenha um lance assim e  então fica aquela coisa, a sujeita do mal é mais esperta e sempre tem um cara que é uma anta e num percebe um palmo na frente e assim fica a novela toda, até no final, a mocinha provar por A mais B que ela é a do bem que a outra é a do mal e que não merece o amor nem de uma pulga.

E é assim que a gente aprendeu a vida toda, tanto pela literatura como pela televisão. Me fez mal é do mal, me fez bem é do bem, e se me decepciona é do mal e se fez algo bom volta a ser do bem ou simplesmente a mudou ou evoluiu, mas ninguém quer dar conta do próprio umbigo.

É ninguém quer mudar, eu pelo menos sinceramente num quero, só racionalmente penso que era bom pra variar, mas o fato é que projetar o mal no outro é bem mais divertido, se você encontra alguém que também não gosta daquele outro é mais divertido ainda, porque aí vira assunto.

Fico confabulando, até cenário monto. Coisa bem baixaria mesmo, com dissimulação e abraço. Ah, mas você disse isso... E bla, bla, bla, balela. Nem tenho tempo para isso. Firma-se a superioridade de quem não se apega a tão pouco depois fica em casa fungando no travesseiro e pensando que o dia certo checa e a cortina se abre. É tudo teatro, mas a gente se esquece que na vida se não dermos conta dos nossos personagens eles nunca deixam de existir e que felizes para sempre é todo dia... Porque essa é uma escolha só nossa.

Não dá pra brincar de rainha má e princesa, nem de mocinha e vilã... Somos tudo por várias razões, então não dá para esperar o outro virar do bem igual novela. A gente pode tentar ser bom, mas sem ter o dever de vítima. O lance é se despir dessa bondade que a gente acha que tem, perceber o nosso mal, assumi-lo e trabalha-lo. Não sentar em cima do rabo.

Todos tem bondade? Aham, mas não vim aqui para pagar de mocinha. Penso que assumindo nosso mal podemos transforma-lo em algo mais produtivo. Assim quem sabe a gente nem percebe o mal do outro... E não é ser inocente, mas não ser afetado, porque as coisas se arranjam melhor sem esse drama todo.

"Esse sou eu na esquina de novo, tudo é tão novo, quanto esta canção. Será que alguém presta atenção?" E.H.

Um comentário:

Dércio Calister Junior disse...

Acredito que se cada um começar a ver o seu próprio mal, a perceber que não é nenhum santo ou se achar justo demais, começaremos a julgar menos as pessoas, pensaremos duas ou mais vezes antes de acusar. De que adianta a gente perceber o cisco nos olhos dos outros e não perceber a trave nos nossos olhos.